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segunda-feira, 23 de março de 2009

O fiel.

Uma noite de domingo numa igreja. Não importa se é católia, evangélica ou qualquer outra. O importante é que várias pessoas, em conjunto, rezavam com fé para um Deus que colocavam acima de tudo. Sua fé, sua vida. Deus, o todo-poderoso, o salvador! Oravam para Jesus Cristo de Nazaré, o filho de Deus que deu a vida na cruz por nós, meros pecadores. Mas o Senhor é justo, o livro sagrado era a única verdade neste mundo sujo dominado por pessoas do mal.

Era o que pregavam lá. Uma parte do sermão do pastor ou do padre. Todos os fiéis sentido o amor do Senhor, cantando músicas lindas. Pediam, agradeciam, rezavam! Esses eram os Soldados de Deus, levando amor, paz e sabedoria para todas as pessoas ao seu redor.

Um fiel se chamava Antônio. Antônio era a pessoa de maior bondade no mundo, renunciando a todos os prazeres para seu bem-estar com Jesus. A paixão de Cristo não foi em vão, Antônio honraria as palavras da bíblia, ajudaria os pobres e famintos levando a palavra do Senhor.

Antônio era um bom rapaz em seus quinze anos de idade, sempre negando as tentações. Um jovem que se orgulhava de dedicar sua vida à religião. Tirava notas boas, só não em biologia, não agüentava ouvir as blafêmias do professor para com Deus. Livros mentirosos escritos pelo demônio. Também tinha filosofia, odiava Nietzsche mais do que a Darwin. Não, depois de um tempo não odiava mais. Percebia que aquilo era um teste, deveria ter pena deles que agora queimavam no fogo do inferno.

Usou remédio para uma castração química, assim não sentiria mais a tentação da luxúria oferecida por Satanás. Foi o melhor dia da sua vida quando se descobriu impotente, sua mãe o apoiou.

Jamais conheceu o pai, portanto, como exemplo paterno, utilizou os ensinamentos de Jesus, escritos na bíblia sagrada. Sua mãe era uma boa mulher, que abandonou uma vida de pecados após ter um filho. Entregou-se a uma vida digna de uma boa cristã.

Esta é a vida de Antônio, uma pessoa que se dedica a Deus acima de tudo. Uma pessoa de bom coração que acredita em seu lugar no céu, afinal, se considerava o melhor servo de seu amado Jesus. Levava uma vida sem pecados.

Sua fé, a caverna. Seu Deus, as sombras.

Aprisionado na hipocrisia de viver por algo que não é real, um simples mito. O mito um homem invisível que fica nas nuvens observando tudo o que fazemos.

O mundo só estará a salvo quando finalmente se libertar de dogmas por medo de ir pro inferno, quando as pessoas aceitarem que não há nada além da morte, só sete palmos de terra. É ridícula a idéia de quem faz coisas boas vai para o céu, quem não as faz, vai para o inferno. Esta é a ilusão de quem é fraco para não aceitar o fim da linha.

Também há uma coisa ainda pior, talvez. As pessoas tem fé e rezam. Se não conseguem aquilo que rezam, foi porque Deus achou melhor assim. Então para que diabos rezar? Ter fé em seres fantásticos é não ter fé em si mesmo, não acreditar no própiopotêncial de conseguir as coisas.

Certa vez, o humorista, dramaturgo e desenhista Millor Fernandes disse:
"Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus"

sábado, 21 de março de 2009

Ao som de um violão.

Não fazia a barba há três dias. O espelho do banheiro estava quebrado e sua mão cortada. A covardia ainda o impedia de fazer o que deveria ser feito. Na sua opinião a vida não havia mais sentido. Não, a vida fazia todo o sentido, mas não encontrava motivos para viver. O vinho já não tinha mais o mesmo sabor, nem sua pele o antigo desejo.

Pensava apenas numa pessoa. Precisava apenas de uma pessoa. Aquela com quem passou os momentos mais felizes de sua vida, aquela que lhe mostrou a felicidade de conviver a dois. Não se viam há uma semana. Uma última conversa e finalmente deixaria a lâmina de uma faca transpassar por seu pulso, com todo o vermelho saindo de seu corpo da mesma maneira que a felicidade lhe fugiu há uma maldita semana.

Sentado no sofá, aquele homem de cabelos pretos, com o desespero lhe vencendo, se chamava Zé.

Zé era um músico que cantava na noite, principalmente em barezinhos, com uma vida bohemia. Conhecia as músicas do Chico Buarque como ninguém. Em seu repertório não faltava Djavan, Toquinho e Cazuza. Sempre encontrou o conforto para seu desespero na música. Principalmente quando se tratava de sua vida amorosa. Mas nunca, em toda a sua curta história, ninguém decepcionou seu coração tanto assim. Uma última apresentação ainda seria necessária.

Se levantou do sofá, tomou banho, se arrumou, pegou as chaves do carro e logo dirigia para um barzinho que cantava toda terça-feira. Marcou com ele lá.

Banquinho, violão, pedidos de músicas em guardanapos amassados. As últimas notas de O Que Será, do Chico, foram seguidas por tímidos aplausos. A fumaça de cigarro, a cerveja que esquentava nas mesas, os risos das conversas cotidianas e aqueles que bebiam acompanhados de sua solidão.

Muitos afogavam as mágoas numa dose de uísque barato com muito gelo, Zé cantava suas mágoas ao som de um violão.

Pediu um intervalo ao público. Era a hora. Quando avistou Carlos numa mesa bebendo uma dose de Campari com limão, seu coração disparou. Se aproximou, sentou a sua frente e um nervosismo tentava lhe dominar. Deveria manter a calma, demonstrar que estava tudo bem.

- Como você tá, cara? - perguntou Carlos, no seu tom sutil, molhando os lábios com um gole no Campari.

- Tô bem. Tô ótimo. E contigo? - forçava uma calma assim como forçava um sorriso. Carlos o conhecia bem demais para saber o que se passava em sua mente.

- Cê sabe, Zé, minha vida profissional está indo muito bem.

- E amorosa? Tá saindo com alguém? - uma curiosidade pertubadora que o fazia falar merda. Não acreditava que estava sendo tão óbvio assim.

A quatro anos tocava naquele barzinho, há dois conheceu Carlos ali, naquela mesma mesa. Uma amizade que, no fim, se tornou muito mais que uma amizade. Um relacionamento que tinha tudo para dar realmente certo.

- Amanhã sai meu vôo para a Itália.

- Volta quando? - as respostas de Zé eram como reflexos, daqueles que sempre queremos nos livrar mas nunca conseguimos

- Não sei. Pretendo ficar lá até minha carreira se fixar.

Seus lábios começavam a secar. Agradecia aos céus por estar sentado, senão cairia de tão bambas que suas pernas estavam. As mãos com os dedos entrelaçados para não deixar que Carlos percebesse o quanto elas tremeriam se etivessem livres. E um silêncio começou a reinar naquela mesa.

- Mas vou vir sempre aqui para ver a família, amigos.

- Sei - disse Zé, num tom baixo.

- A gente podia se ver sempre. Como amigo.

"Claro", tentou responder. Não conseguia mais pronunciar palavras com mais de uma sílaba. Doía o silêncio que mais uma vez se arrastava até ali. Sem palavras. Sem saber o que fazer nem o que pensar. Esperou uma semana pelo maldito silêncio. As cordas do violão o chamavam.

- Tenho que ir, voltar a tocar. Adeus.

Carlos ainda abriu a boca para falar algo, porém, nada disse. Apenas escreveu com a Bic azul num guardanapo.

Preciso Dizer Que te Amo, do Cazuza. Foi a música que cantou ao ver seu grande amor pedir a conta. Cantando, seus pensamentos voavam. Talvez já pudesse desistir de viver sem arrependimentos, talvez fosse esperar um pouco mais para dar a última nota.

terça-feira, 10 de março de 2009

Sacrifício.

Já beirava o fim dos quarenta anos de idade.

Estava sentado ali havia cerca de duas horas. Quando saiu do trabalho que detestava, dirigiu o Celta verde imundo até o Bar do Nogueira, onde ia todos os dias, sentando no mesmo lugar. Apreciava sua solidão com apenas duas ou três cervejas que esquentavam na mesa durante as intermináveis horas.

Silveira era seu nome. Pelo menos era assim que todos o chamavam. Jeans engomado, sapatênis e camisa social xadrez de manga curta com canetas no bolso do peito. Acendia um cigarro, óculos de lentes grossas. Já havia sido feliz quando jovem. Esposa chata, filhos adolescentes e contas a pagar, prestações, água, energia.

Há alguns anos que não sentia o prazer das coxas desnudas de uma mulher. Alguns ficariam frustrados na dúvida de saber se é ou não é impotente, mas aquilo já não importava mais.

Foi um jovem sonhador que curtiu a vida, mas agora só pensava em ter que suportar pelo menos vinte anos vivo, depois, finalmente poderia morrer. Mas seu orgulho já havia sido enterrado muito antes.

Acendeu um cigarro, era o último que havia naquele maço amassado que estava no bolso junto com as canetas.

Lançou um olhar para o relógio na parede do bar. Nove da noite. Pediu a conta ao seu Paulo, o garçom que trabalha há mais de vinte anos no Bar do Nogueira. Pagou, guardando o troco na carteira. Com a carteira aberta, observou dois retratos três por quatro, um menino e uma menina que hoje já deveriam estar com o dobro da idade que tinham na foto.

Seus filhos tinham uma vida de classe média, estudavam num bom colégio. Essa era sua recompensa. Já foi feliz, agora se sacrificaria pela felicidade de seus filhos.

Voltou para casa, dormiu na mesma cama da mulher que detestava e já não reconhecia. Deveria acordar cedo para ir ao trabalho no dia seguinte.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um novo dia: capítulo um.

Pela primeira vez na vida realmente conhecia a sensação de liberdade. O seu corpo nu cortando o vento era algo realmente agradável. Seus cabelos esvoaçavam. Porém, logo ouve-se um alarme de carro gritar.

Rumo a liberdade, ao cair do vigésimo quinto andar de um prédio executivo, sua queda foi amortecida por um carro. Como uma bola de pingue-pongue, ele ricocheteou e caiu no asfalto.

Elegantes sapatos italiano refletindo em seu rosto os raios solares do meio dia. Ao olhar para cima e logo ficou de pé. Tinha um sorriso no rosto com sabor de orgulho. Peito estufado e cabeça erguida. Assim encarava a morte.

- Olá, senhor - disse, cumprimentando a quele que deveria levá-lo dauqele lugar.

- Suicídio? A Vida já não fazia sentido?

- A Vida? Hum, sinceramente, prefiro a Morte.

O alarme do carro chamou a atenção de algumas pessoas que estavam na rua. E agora viam o corpo do homem que caíra ali sem nenhum ferimente e, aparentemente, falando sozinho.

Então a Morte se dá conta de algo. O corpo que caiu era o mesmo que estava falando. Não era a alma. As pessoas ao redor percebiam aquele que já não deveria estar ali. Então um terceiro personagem aparece: velho, baixo, curvado, barba grisalha, chapéu pequeno, terno cinza empoeirado e um relógio de bolso. Era aquele que enxergava o presente, o passado e o futuro. Era aquele a quem chamamos de Tempo.

- Você veio me levar - disse, num tom calmo e de voz fraca o Tempo.

- Porra, velho, tu não pode morrer. O que aocnteceu? - Indgou a morte, num tom supreso. Era a primeira vez que tinha aquela sensação.

- Eu matei o Tempo, ora, logo me tornei imortal. A hora da minha morte jamais chegará - falava o humano, que agora dava as costas e começava a andar.

Agora o Tempo já não existia. Tudo parou, porém, as pesoas continuavam. Ainda era cedo para perceberem o que ainda estava por vir.




Dedicado a todos que amam sexta-feira 13!!!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um dia comum.

Alto, óculos escuros, terno elegante, sapatos caros. Parecia entediado, com uma mão no bolso e a outra segurando o guarda-chuva aberto sobre sua cabeça. Noite chuvosa. Não gostava muito de trabalhar daquela naquele clima.

Estava na calçada. No meio da rua havia um carro capotado e sendo devorado pelas chamas. Mais uma vez teria que agir rápido, senão o trabalho ficaria mais desagradável. Foi até lá normalmente, a rua escura iluminada pelo fogo. Com metade do corpo para fora do carro, um homem magro e careca parecia dormir tranqüilamente com a cabeça sangrando. Abaixou-se, segurou pelo colarinho do careca e o arrastou até a calçada.

- Acorda, bela adormecida - disse, dando pequenos tapas no careca que logo abria os olhos.
O tal sujeito acordou assustado, sem saber o que estava acontecendo. Levantou-se rapidamente, passando a mão pelo próprio corpo para ver se estava tudo em ordem. Respirou aliviado.

- Oh, Deus, muito obrigado! Mas... ei... quem é você? Você me tirou dali?

- Pode-se dizer que sim - falou, colocando um cigarro na boca e o acendendo com um isqueiro de prata.

- Obrigado, de verdade, muito obrigado! Posso fazer algo por você? Tenho muito dinheiro, se você precisar...

- Não quero dinheiro.
O careca olhou para o homem, estranhando-o. Quem, em sã consciência, não gostaria de receber dinheiro?

- O que você quer?

- Cumprir meu trabalho, minhas obrigações.
Fumava o cigarro sem tragar, deixando a fumaça sair pelas narinas.

- Você me salvou, merece alguma recompensa - insistiu, agora temendo que o tal homem lhe fizesse algum mal.

- Não te salvei, amigo. Olhe para trás.

A visão de si morto deve ser realmente chocante. Se ainda estivesse vivo o careca provavelmente teria sofrido um ataque cardíaco. Se perguntava o que estava acontecendo. Olhava para os lados e entendia tudo menos ainda.


- Quem é você?

- Sou a Morte, careca. Chegou a hora.

Desesperado, o careca apenas partiu numa corrida sem rumo pela rua. Respirava, sentia a chuva e os pés sobre o asfalto. Parecia mais vivo do que nunca. Mas, afinal de contas... qual era o seu nome? Quem era? O que havia acontecido antes de acordar na calçada? Percebeu, então, que desde aquele momento em que fora arrastado suas lembranças começavam a desaparecer. Olhou para trás e não via mais a Morte, porém, ao olhar novamente para frente, esbarrou nela. Fugir do inevitável seria uma tolice.

- É sempre a mesma coisa, puta merda! Vocês vêm, morrem e não aceitam. Isso realmente me entristece - o tom da Morte era sarcástico, debochando do careca. - E o pior de tudo que ainda me fazem parecer o vilão da história.

Talvez pela primeira vez naquela noite, ali, sentado no chão molhado, começava a raciocinar. Esfregava a testa tentando tirar alguma lembrança dali. Nada. Encarando a Morte nos olhos, finalmente se ergueu como homem. Ajeitou a roupa, enguliu a seco e finalmente criou coragem para perguntar:

- Para onde eu vou?

- Você? Não faço a mínima idéia. Eu vou para aquele bar de strippers no fim da rua. Au revoir, mon ami!

Então a Morte lhe deu as costas. As lembranças se perdiam cada vez mais. Perguntava-se o que havia ocorrido nos últimos minutos, então já havia esuqecido tudo e seu "corpo" se desfazia com o vento.

No local do acidente os paramédicos e a perícia estavam armando todo o circo. Apesar de tudo, todos pareciam ignorar um homem tão alto quanto a Morte. Vestia um terno branco e andava em passos calmos sob a chuva.

Numa maca, o corpo seria levado ao hospital. Mas então o homem de terno branco, enquanto acompanhava a maca, aproximou os lábios ao ouvido do careca, sussurrando algo para então desaparecer no meio de uma multidão.

Longe dali, numa colina, estava a Morte observando a cidade. Ao seu lado, a Vida.

- Olá, bom samaritano. Desfilando e levando uma nova vida à minha freguesia?

- Eles são fracos. Você leva, eu trago - a Vida possuía um tom de voz calmo e paciente.

- Somos as únicas certezas desses pobres coitados. Você os acompanha por anos e nunca sobra tempo para eu me divertir.

- É você que sempre estraga os meus planos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O bar.

Lentamente o uísque barato escorria pelas pedras de gelo, enchendo o copo. Neste meio tempo, mais uma ponta de cigarro foi largada no cinzeiro de vidro.

O garçom foi atender outra mesa, o freguês apenas ficou ali, perdido em pensamentos, com pessoas conversando em tom alto ao seu redor. Bebia sozinho, fingindo não se importar. A solidão era sua única companheira.

Passou a noite anterior com um amor comprado de seios nus. Em poucas horas passaria folheando revistas no velho banheiro.

Seu uísque desceu queimando a garganta e explodindo no peito. Sentiu a barba arranhar a palma de sua mão quando coçou a bochecha esquerda. Esfregou o rosto. Recordava o passado e cada gole era uma lembrança que ressurgia. Bocejou e fechou os olhos, abrindo após instantes.

Olhou para um lado, para outro. Acabou por notar uma bela jovem ao balcão. Provavelmente tinha o dobro da idade da garota. A pele parecia macia e o curto vestido deixava as belas pernas a mostra. Bebia Campari.

Os olhos dela também acabaram por percebê-lo. Não demonstrou constrangimento, encarando-a com um sorriso no canto da boca, ela retribuíu o gesto erguendo a sobrancelha esquerda.

A bela morena levantou, trazendo consigo a dose de Campari e sentou na mesa sem nem ao menos pedir permissão. Puxou papo e a conversa se desenvolveu bem. Não vendia seu corpo, apenas gostava de usar.

Agora estavam em algum quarto de apartamento. Não muito luxuoso, mas arrumado e limpo. Na cama, os dois se beijaram e entrelaçaram as pernas. A noite foi longa e prazerosa. Os lábios daquela misteriosa garota eram realmente calorosos.

Algo estranho aconteceu. O garçom lhe tocou o ombro. Uma decepção e tanto quando a dura mesa de madeira tomou lugar dos seios macios da morena.

Um dia já foi feliz ao lado de uma mulher. Essa lembrança foi a que mais o machucou.

Voltou a beber sua dose. Acendeu outro cigarro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Amor de mãe.

Uma festa de gala. No bairro nobre da cidade a sociedade burguesa se reunia em mais uma comemoração, bebendo vinhos caros com o dedo mindinho levantado. Políticos corruptos, advogados assassinos, banqueiros da máfia. Longe dali, muito longe dali, onde a noite é mais escura, a área pobre. Vidas miseráveis abaixo da linha da pobreza.

Dona Maria deveria ter por volta dos cinqüenta e tantos anos. Aparentava ter muito mais. Morava num barraco pobre onde nenhuma pessoa realmente merecia morar. Porém, estava melhor que a maioria dos moradores do bairro.

As estrelas sumiram quando o céu fechou. A água da chuva caía na calçada e escorria pelo boeiro.

Com os grossos pingos de água lhe martelando a cabeça, uma pobre garotinha de apenas seis anos andava apressadamente. O rosto molhado não só pela chuva, mas também por lágrimas amargas. Renatinha, neta de dona Maria, que agora batia na porta com sua pequenina mão. Em silêncio, ouviu passos de dentro do barraco, em seguida, a porta se abriu. A avó olhou com seriedade para a neta, logo a fazendo entrar.

Renatinha, assustada mas calada, nada fez quando dona Maria lhe jogou uma toalha. Não perguntou o que havia acontecido, entendeu tudo apenas em olhar para as coxas ensangüentadas da pobre menina.

Dona Maria foi até um cômodo do barraco, passando pelo pano que deveria ser a parede. Tirou uma grande faca da gaveta. A lâmina estava cega e enferrujada. Uma expressão de ódio no rosto. Passou pela pequena sala, praticamente ignorando a menina. Saiu na chuva sem se importar, virou à direita andando até o terceiro barraco da rua. A porta estava aberta.

Um outro barraco, menor e sujo. Os poucos móveis caídos. Gritos. Adentrou a sala, atravessou e logo avistava a pequena cozinha. Um homem magro e feio batendo numa mulher também magra. A mulher tombou, caindo para trás, o homem deu-lhe dois pontapés na coxa. A lâmina cega da faca de dona Maria entrou nas costelas do sujeito. Tirou a faca e o encarou.

José tinha uma barba mal feita com um bigode grande, cabelo curto e assanhado. Era o genro da dona Maria. Agora tinha um buraco nas costelas, por onde sangrava. Seu hálito era de cachaça. Sua mão suja com sangue da esposa voou no pescoço da sogra, que acabou por desferir mais um golpe: desta vez acertou a genitália, rodando a faca.

"Filho da puta! Isso é pra tu nunca mais estuprar minha neta, seu merda", rugiu dona Maria. José deixou uma lágrima cair, em seguida, caiu ajoelhado no chão com a faca por entre as pernas. "Ande, minha filha, vamos pra minha casa", falou, num tom de desprezo. A filha se levantou e deu um tapa na mãe, gritando com ódio pelo que havia acontecido com seu amado marido.

Hábitos que não mudam.

Não seria a primeira vez que faria aquilo. Não era mais o amador de anos atrás. Estava estressado com a esposa, com a cara feia do chefe no trabalho e com a idéia de que poderia estar enferrujado. A pelo menos três anos não fazia. Precisava relaxar e aquilo sempre o deixava com uma paz de espírito. Uma recaída, mas, mesmo assim, não seria nada demais.

Calçava quarenta, mas suas botas eram quarenta e quatro. Colocou jornal para não ficar tão frouxo. Assim pareceria mais alto e mais magro nas pegadas deixadas na terra. O céu estava limpo, mas mesmo assim usava capa de chuva. Também tinha luvas em sua mão. No rosto uma máscara de pano negra.

Segurava a faca com firmeza. Era invisível num beco escuro perto de algum bar na área pobre da cidade. Não havia muito movimento. Os carros passavam de meia em meia hora, quando passavam. Viu, então, uma bela mulher passando. Parecia uma porstituta. Casaco barato, botas até o joelho de couro brilhante, top vermelho, chiclete na boca, bolsa pequena e exagerados cabelos pretos. Ela passou pelo beco e logo foi atrás dela. Segurou-a por trás, colocando uma mão em sua boca, a outra, seguurando firme a faca, fez a lâmina lhe tortar a garganta. Outrogolpe, agoa à espinha da prostituta. Enfiou a faca e girou, e o sangue espirrou na barriga. Por último, usando a mão que lhe tampava a boca, quebrou o pescoço dela.

Saiu dali às pressas, voltando ao beco escuro. Tirou a capa de chuva ensangüentada e enfiou cuidadosamente num saco. Em seguida, colocou as botas. Havia outro par de sapatos escondidos estrategicamente. Calçou-os. A faca e a máscara foram para o mesmo saco da capa de chuva, assim como as luvas.

O saco era preto e grande. Levou até um grande tambor de lixo. Colocou o saco ali, em seguida, tirou uma pequena garrafa de álcool no bolso, derramando o líquido no lixo e em seguida o acendendo com um palito de fósforo.

Foi até o carro e logo dirigiu à sua cobertura na área nobre da cidade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A morte. A vida?

Nesta trama sem sentido, sem pé e nem cabeça, você não encontrará final feliz. Muito menos um final com sentimentalismo barato ou lição de moral. Portanto, lhe aconselho a fechar esta página. Mas, claro, se você for do tipo teimoso e ainda tem a esperança de encontrar algo que se aproveite no tédio deste blog, sinta-se a vontade.

Muito bem. Você ainda está aqui. Por consideração à sua pessoa vou parar de enrolar. Agora seria a hora ideal para descrever o clima. Frio. Agora o cenário. O mais clichê possível de um filme noir em preto-e-branco. O nosso personagem? Um senhor de idade, entre sessenta e setenta anos. Poderíamos descrevê-lo como um mendigo.

Agora vamos acelerar nossa história. Um ataque fulminante lhe invade o peito. Prestes a morrer de uma parada cardíaca, enquanto jovens punks passam perto e olham com indiferença, o coitado tem uma visão de como foi sua vida.

A vida lhe parecia como uma estrada. E nesta estrada, a cada quilômetro, pode-se encontrar um pouco daquilo que era sua dignidade. Uma estrada de sonhos não realizados e amores perdidos. Por entre esses sessenta ou setenta anos que viveu, como, até hoje, jamais havia adiantado aquele momento? Afinal, era apenas um mendigo insignificante num mundo sujo.

Ao que parecia, os jovens punks não o olharam com real indiferença. Amaldiçoou o som da ambulância chegando ali.

Sobreviveu mais um dia para voltar à sua miséria e àquilo que chamavam de vida. "Teve sorte", disse o médico, dando-lhe um tapinha nas costas. Mas, na verdade, sorte era o que lhe faltava.

Foi obrigado a sobreviver por mais dias.