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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A vida.

Sentado numa cadeira de plástico, na calçada de sua casa, apenas observava o movimento dos carros na rua. Cabelos brancos, lembrava-se do tempo de menino que tudo aquilo era terra batida.

Lembrava-se dos amores que houve ao longo de sua vida, de quando se é criança e a única preocupação que existe é ser flagrado espiando a vizinha tomar banho, lembrava-se de quando era jovem e o mundo parecia estar na palma de sua mão, e até quando já era adulto e estar com a mulher e os três filhos era a única felicidade existente.

Hoje era apenas um velho.

Imaginou como teria sido a vida se tivesse ido atrás do grande amor, não ter largado a faculdade para cuidar da família e hoje ser um homem bem sucedido.

Então o gosto dos bolinhos de carne que sua avó fazia lhe vieram à memória, de como sua mãe era preocupada e reclamava de ele estar magro demais.

O bigode de seu pai acima do sorriso amoroso.

O primeiro beijo, o primeiro amor.

A formatura de seus filhos.

A morte de sua mulher.

A vida. Apenas a vida.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Juventude.

Deitado sobre a grama muito verde, aquele jovem de 15 anos mantinha a cabeça confotável apoiada no antebraço, tragando um cigarro enquanto observava as formas das nuvens no céu.

A vida parecia irreal, um paraíso, perfeita. Não podia ser explicada em palavras. Aquele sorriso não saia dos seus lábios, o cheiro do cabelo loiro ainda estava em suas narinas. Parecia que havia corrido uma maratona, sentia-se cansado, mas relaxado. Não havia muito sol, até poderia dormir ali. O gosto do corpo dela ainda em sua boca, era como se ainda estivesse sentido o toque dela.

Passava a mão em seu rosto, procurando alguma barba, não havia nada, mas sentia-se homem. Talvez fossem os cigarros que roubara do pai, talvez o corpo magro da vizinha viúva, talvez porque já não brincasse mais com seus carros de brinquedo, era apenas aquela sensação de maturidade.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Deus está entre nós.

Certa vez, um menino pedia esmola no sinal, sem sucesso, debaixo daquele Sol fervente do meio dia, percebia que não valia a pena viver daquele jeito. Seu primo, que era dois anos mais velho, estava vendendo a "mercadoria" que o líder de sua favela produzia. Talvez pudesse fazer o mesmo, era provável que conseguisse dinheiro para ajudar sua mãe. Mas algo estranho aconteceu. Ao olhar para o céu, viu um pássaro muito branco. Talvez um pardal, pelo tamanho. E, sem poder explicar, simplesmente sentiu sua vida mudar, uma sensação de amor próprio que ia do seu dedão até o último fio de cabelo. Aquele menino apenas se matou nos estudos, conseguindo uma bolsa numa boa escola e enfim entrou para a faculdade, formando-se para ter um bom emprego.

Eu já ouvi dizer que Deus, muitas vezes, toca nossos corações sem que possamos perceber, que Ele está em nossa volta, nos animais, nas árvores, no céu, na água, espalhando amor divino para seus filhos.

Então, certo dia, um garoto alemão de topete estiloso e poucos pelos no rosto, que esperava cultivar um grande bigode, andava pelas ruas de sua cidade ao perceber aquele mesmo pássaro branco no galho de uma árvore. Era mais uma vez Deus, querendo semear amor em seus filhos. Com um estranho sentimento, o garoto tinha a sensação que precisava mudar o mundo, que pessoas realmente deveriam entender a verdade. Sacando seu estilingue do bolso, pegou uma pedra do chão e acertou bem na cabeça do pardal. Headshot. Deveria acabar com a hipocrisia das pessoas, então dedicaria sua vida à estudar e filosofar por aí. Havia assassinado Deus. Denunciaria a hipocrisia que nesse mundo.

Ah, e sabe oo outro garoto do sinal? Freqüenta a igreja semanalmente, é advogado de sucesso do líder da favela, bate na mulher e deixou sua mãe num asilo para tentar esquecer o passado pobre.

C'est la vie!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Segunda-feira.

O asfalto molhado pela chuva da noite anterior, com poças d'água refletindo os enormes edifícios enquanto tenta tirar alguns minutos de sono com a cabeça recostada na janela do carro.

Em sua mente, o tedioso pensamente de mais um dia como todos os outros. Lamentando-se por ser segunda, tendo aquela nostalgia das besteiras que fez no dia anterior.

Segunda-feira e bocejava de sono. Poucas horas dormidas que não valeram de nada. Tentava lembrar da matéria que veria naquele dia, mas só conseguia pensar o quanto detestava trigonometria. Mal esperava a hora de quando chegasse no sábado, ou até sexta à tarde.

O começo de mais uma semana normal e rotineira. Escola, casa, inglês, natação. Umas merdas aqui e outras acolá.

Não acontecia nada demais em sua vida.

Certo dia resolveu que aquilo deveria ser diferente. Ao chegar da aula, ao meio dia, almoçou bife assado (o prato que sua mãe fazia toda segunda), foi ao seu quarto, trancou a porta e ligou o computador. Se masturbou uma última vez, e, sem suas roupas, abriu a janela de sua fortaleza do 16º andar do prédio. Num salto, sentiu o vento lhe esfriar o corpo, resolveu apenas abrir os olhos e para ver o chão. Não deu tempo.

E era só mais uma segunda-feira.

terça-feira, 31 de março de 2009

Peão.

E lá estava José, aos seus cinqüenta e tantos anos de idade nas costas. Magro, barba, dentes caindo, chapéu de palha, cheiro de suor e uns trapos que chamava de roupa.

Este humilde narrador é, com orgulho, cearense. Nordestino. E, como muitos outros contistas de minha terra, tenho que falar sobre a dificuldade do povo em seu enorme clichê. Dificuldade esta que nunca presenciei realmente, mas que, assim como você, reconheço sua existência, e em suma hipocrisia tentarei passar nestas linhas o sofrimento do peão José como se eu realmente conhecesse a seca do sertanejo.

Um botequim sujo e nojento, com cheiro nada agradável. Mesas velhas, bancos comidos por cupins. Ficava no meio da estrada, cercado por um mato que morria cada dia mais agora que a rara época de chuva passava.

O caboclo José virava outra dose de sua cachaça. Dormira muitas vezes no meio daquela estrada, porém, chorara muito mais num mato escondido pela humilhação de existir. Seus pés descalços, suas mãos cheias de calo e um olhar amargo de sua ignorância sem estudos. Era homem e ainda assim tinha que puxar saco de candidato a vereador para conseguir umas moedas, como fazia a maioria de seus conhecidos.

Um golpe no coração lhe era dado toda vida que seu filho mais novo chorava desesperado pela fome que consumia seu corpo desnutrido.

Certa vez tentou a cidade grande, se arrependeu, matou um tentando comida e acabou na prisão. Nessa época foi que seus insignificantes sonhos morreram. Passou poucos anos atrás das grades, quando saiu logo arrumou de voltar para sua cidade, voltar para seus familiares. Conseguiu emprego na prefeitura ganhando pouco, mas pelo menos podia dizer que tinha um emprego. E se orgulhava disso, afinal, era um emprego direito e honesto.

Emprego de prefeitura não dura muito. Quatro anos, com sorte pouco mais. Mudou prefeito, mudaram funcionários. Mais uma vez José se sentia humilhado. Morava numa cabana inacabada de dois quartos, coisa realmente abaixo da linha de pobreza.

Vez ou outra ainda consgeuia uns bicos. Vida miserável e que não acaba nunca foi o que fez de José o que ele é: homem sem educação, sem estudo, sem dinheiro.

Vida de peão que passa despercebida. Se você vê um peão tentando a vida numa cidade grande, logo fecha o vidro do carro dizendo que não tem moeda nem trocado. Povo trabalhador que não tem medo de pisar no chão e reza para não ser pisado. Josés do Brasil que sobrevivem a dias de cão. Preto, índio, branco, caboclo, mulato, povo brasileiro sofredor e que constroem o país que não lhes dão nada em troca.

Peão guerreiro, abatido e que segue em frente.

quarta-feira, 18 de março de 2009

As chaves do carro.

"Onde estão as chaves do carro?"

" Você procurou no móvel, Marcelo? Estava lá última vez que vi."

Ana passava maquiagem no rosto enquanto Marcleo terminava de vestir os sapatos. Era quarta-feira de manhã, ambos se arrumando para o trabalho. Um típico casal jovem, um advogado e uuma professora. Classe média, em dois anos de casamento finalmente começavam a fazer coisas que um casal comum faz: manter as aparências de casal feliz.

Marcelo se despediu de Ana, apenas com um simples "até de noite". Dois anos atrás seria com um selinho que terminaria com ambos suados e às pressas.

Na caragem, Marcelo apertou o botão do controle do alarme do carro, que piscou duas vezes.

Dirigia pela rua quando dá um tapinha na testa: havia esquecido de sua pasta na pressa de achar as chaves do carro. Rapidamente faz o retorno e acelera para pegar o sinal aberto. Péssima hora para ter o péssimo habito de não usar o sinto de segurança. Ao chocar com uma caminhonete, voôu pelo vidro e fraturou o crânio no asfalto.

Morreu.

O trânsito continuou.

terça-feira, 10 de março de 2009

Sacrifício.

Já beirava o fim dos quarenta anos de idade.

Estava sentado ali havia cerca de duas horas. Quando saiu do trabalho que detestava, dirigiu o Celta verde imundo até o Bar do Nogueira, onde ia todos os dias, sentando no mesmo lugar. Apreciava sua solidão com apenas duas ou três cervejas que esquentavam na mesa durante as intermináveis horas.

Silveira era seu nome. Pelo menos era assim que todos o chamavam. Jeans engomado, sapatênis e camisa social xadrez de manga curta com canetas no bolso do peito. Acendia um cigarro, óculos de lentes grossas. Já havia sido feliz quando jovem. Esposa chata, filhos adolescentes e contas a pagar, prestações, água, energia.

Há alguns anos que não sentia o prazer das coxas desnudas de uma mulher. Alguns ficariam frustrados na dúvida de saber se é ou não é impotente, mas aquilo já não importava mais.

Foi um jovem sonhador que curtiu a vida, mas agora só pensava em ter que suportar pelo menos vinte anos vivo, depois, finalmente poderia morrer. Mas seu orgulho já havia sido enterrado muito antes.

Acendeu um cigarro, era o último que havia naquele maço amassado que estava no bolso junto com as canetas.

Lançou um olhar para o relógio na parede do bar. Nove da noite. Pediu a conta ao seu Paulo, o garçom que trabalha há mais de vinte anos no Bar do Nogueira. Pagou, guardando o troco na carteira. Com a carteira aberta, observou dois retratos três por quatro, um menino e uma menina que hoje já deveriam estar com o dobro da idade que tinham na foto.

Seus filhos tinham uma vida de classe média, estudavam num bom colégio. Essa era sua recompensa. Já foi feliz, agora se sacrificaria pela felicidade de seus filhos.

Voltou para casa, dormiu na mesma cama da mulher que detestava e já não reconhecia. Deveria acordar cedo para ir ao trabalho no dia seguinte.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Agora eu vou contar uma história de conto de fadas.

Estava de noite. (Tá, eu sei que uma história tem que começar com "era uma vez...", mas prefiro "estava de noite", afinal, é à noite onde as melhores histórias ocorrem). A nossa princesa não andava pelo castelo, mas sim por uma calçada. Ela não usava vestido longo e azul, mas mini-saia e salto-alto. Não tinha uma fada madrinha, mas tinha um cara gordo e careca que lhe dizia o que fazer e dava permissão e proteção a outras vária princesas naquela área imunda da cidade.

Agora, chegamos na parte do príncipe encantado. Não, ele não chegou montando um cavalo branco, e sim dirigindo um Golf prata com aro vinte e som no porta-mala. Quando a nossa princesa colocou o rosto no vidro do carro, possuía maquilagem pesada para esconder o olho roxo, presente da nossa "fada madrinha". E ela logo entrou no carro, e foram Felizes Para Sempre. Não, nossa história não acaba aqui, Felizes Para Sempre é o nome do motel mais próximo.

O beijo? Não, ela não beija em serviço; e o nosso príncipe, que tem hálito de cerveja e maconha, não quer saber de beijar. Se ele quisesse beijar, beijaria a Bruxa Malvada, sua noiva burguesa. (É melhor pularmos para a próxima parte, pois não quero que o blog seja sensurado).

Agora, caros leitores, a nossa princesa volta para o seu castelo, aquela mesma rua imunda onde estava parágrafos atrás. O dinheiro que ganhou do príncipe vai para o gordo careca, que tira duas das sete notas e dá para a nossa protagonista. Com esse dinheiro, ela volta para casa de ônibus.

Em casa, olha se o filho está dormindo. Guarda o dinheiro. Depois vai para a cozinha, comendo o que sobrou do almoço após requentar no microondas que já está na sétima das dez prestações. Deita no sofá, chorando a vida e lamentando-se de tudo, tu que tentava ams não podia dar ao seu filho. Queria morrer, mas não podia, deveria cuidar do garoto. O pai era honesto, não era um cliente, mas depois de um mês sumiu. Quando deu por si, já estava amanhecendo.

Rapidamente fez o lanche do garoto, deixando-o na escola em seguida. Foi para o trabalho de diarista, onde consegue um pouco de dinheiro. Depois, no almoço, pegou o filho e deixou na casa da avó. Depois coltou ao emprego de diarista. Não tardou para que acabasse, então pegou o garoto na casa da mãe e deixou em casa. Rezando para que o garoto dormisse, logo se arrumou e voltou para seu castelo.